terça-feira, 27 de junho de 2017

Ler jornais já não é saber mais (23): a arte perdida dos títulos


O jornalismo devia ser conciso. Os títulos deviam ser claros e fáceis de ler. As primeiras páginas deviam poder ser entendidas rapidamente. Os jornalistas sabiam, em geral, escrever.
Nesses tempos escrever-se-ia assim, numa primeira página, e mantendo o truque de isolar "Beja" para se venderem mais exemplares (um? dois?) nessa cidade: "Obras na estrada / põem a descoberta / necrópole romana".
E não consigo perceber porque é que se prefere usar "colocar" (7 letras, 3 sílabas) em vez do português "pôr" (3 letras, 1 sílaba).



"Público", 27.06.17

Também é para isto que servem os aumentos na Função Pública

Causa-me alguma impressão, até pela profissão que exercem, a falta de sensibilidade social de alguns que desculpam o Governo pelo escândalo dos mortos e feridos de Pedrógão Grande mas se encarniçam contra o líder da oposição porque cometeu um erro.
Porque a culpa, afinal, é dos "amigos" deles, que até lhes dão mais dinheiro ao fim do mês e os 64 mortos e mais de 200 feridos são para esquecer.
Que importância têm estas vítimas? Nenhuma, para tais hipócritas.

domingo, 25 de junho de 2017

Notas de prova



Quinta do Escudial — Tinto 2013 Touriga Nacional  DOC Dão
Touriga Nacional
Quinta do Escudial, Vodra (Seia)
14% vol.
Excelente.

Notas de prova


Encostas do Enxoé — Branco 2008  Vinho regional alentejano
Roupeiro (e outras?)
Sociedade Agrícola de Pias (Pias)
14% vol.
Muito bom.

Coisas que ainda vale a pena discutir em Caldas da Rainha


Hospital termal de Caldas da Rainha (© "Gazeta das Caldas"/Solange Filipe)

A Câmara Municipal de Caldas da Rainha vai ceder o Hospital Termal e o Balneário Novo (que fazem parte do património termal do concelho) ao Montepio Rainha D. Leonor (que pode ser considerado um hospital privado local).
A câmara, beneficiária da concessão das termas que o Estado lhe outorgou, não tem capacidade nem competência para gerir este património.
Quis que ele fosse seu mas andou vários anos a fazer planos, projectos e contactos com entidades do sector da saúde (de preferência, ricas) e não conseguiu. Com as eleições à porta, optou rapidamente pelo Montepio, que aparenta uma boa saúde financeira. Parece um "ovo de Colombo" mas o negócio tem aspectos demasiado sombrios para ser satisfatório.
O PS e o CDS já avançaram com as suas dúvidas, com a "Gazeta das Caldas" a fazer um resumo das posições desta parte da oposição (o resto da oposição, como é hábito, anda distraída) e o PS a pormenorizar, num trabalho bem feito, todas as suas apreensões, trabalho que, no entanto, passa à margem do seu candidato oficial (de que apenas se conhecem visitas a empresas)
Agitada como bandeira fundamental para o concelho, a questão termal devia ser um dos temas obrigatórios da campanha eleitoral. A candidatura do PSD local (que domina a Câmara Municipal) vai apresentá-la como um grande feito seu. Infelizmente, o resultado é negativo. Eis um ponto que exigiria maior atenção por parte dos protagonistas políticos e sociais.
Mas não só, claro. Ao contrário do que pretende fazer crer a desastrosa gestão municipal, o balanço destes quatro anos do que, numa ironia tristonha, foi designado por "nova dinâmica", acumulam-se problemas por resolver, e vão surgindo outros.
A rede viária deficiente, o mau estado das entradas da capital do concelho, o abandono do interior do concelho (inclusivamente da costa atlântica), o abastecimento de água, o clientelismo em vez do apoio rigoroso às associações necessitadas e a destruição das freguesias rurais são alguns exemplos de como tudo consegue estar pior em quatro anos do que já esteve.

As palavras do presidente da Câmara
e a sua falta de palavra

Neste panorama sombrio há um exemplo que caracteriza toda esta gestão (revelado também pelo PS): o presidente da Câmara Municipal foi-se comprometendo com a construção de um canil e gatil municipal. Foi dizendo que sim, que ele existiria. E que até haveria a inauguração antes do final do mandato (agora, por outras palavras). Mas não há canil nem gatil.
A situação dos cães e dos gatos (perdidos, abandonados, a viverem na rua, a sobreviverem como podem, doentes e mortos sem qualquer tipo de assistência) é grave neste concelho. Os problemas da saúde pública associados são também graves. 
Há associações particulares que fazem o que podem. Os seus projectos não conseguem entrar na pequena farsa do "orçamento participativo". A mentalidade dominante, urbana e rural, não ajuda.
Uma iniciativa como a que foi propagandeada e depois abandonada seria fundamental. Mas não daria votos ao presidente da câmara. A falta de palavra também não, mas nem toda a gente repara.


Pedrógão Grande: os nus e os mortos


Os incêndios florestais são uma rotina. Afectam todos os governos. As responsabilidades são públicas e privadas. São lá longe, no interior, mais ou menos esquecido. Tem sido sempre assim. Mas nunca com tantos mortos.
É isso, até, o que mais impressiona no caso de Pedrógão Grande. Além do facto de as mortes ocorridas (64, pelo menos, com todas as dúvidas que advêm da não identificação de corpos carbonizados e destroços por revolver) não terem sido, na sua maioria, em locais directamente afectados pelas chamas mas numa estrada pelo meio de árvores. Que se incendiaram. E para onde a GNR desviou o trânsito.
Uma semana depois não há resposta para todos os enigmas. Nada parece claro. Não se percebe como as autoridades civis, policiais e políticas não agiram, agiram mal ou descoordenadamente. Olha-se para os números e as suspeitas de encobrimento são mais do que muitas. Não se percebe como é que falharam os sistemas da “protecção civil”. Não se aceita, ao mesmo tempo, a leviandade, a demagogia e a irresponsabilidade dos dirigentes políticos do Estado e de um Presidente da República atraído simultaneamente por acidentes graves e câmaras de televisão. Tudo falhou. E os mortos, transportados num camião-frigorífico como se isto fosse um país do Terceiro Mundo, mostram-no bem.
Tudo isto pôs a nu a imensa hipocrisia oportunista da extrema-esquerda que temos: o BE e o PCP, em tempos tão loquazes em épocas de fogos, calam-se, escondem-se, fingem que não existem. Venderam-se por uma migalha de poder, venderam os seus, venderam a honra que ainda lhes restava. É um espanto como tantas boas almas ainda os seguem, em silêncio, como rebanhos. Fazem, à sua maneira, o percurso de uma “estrada da morte” política.
Das chamas, no entanto, renasceu uma fénix… embora talvez por pouco tempo. O jornalismo voltou à ribalta. Fizeram-se perguntas, relataram-se tragédias pequenas e grandes, mostraram-se as imagens necessariamente chocantes, deixaram-se verter algumas lágrimas, fizeram-se boas capas e primeiras páginas. Longe de Lisboa e do Porto, longe de directores, patrões e chefes, os jornalistas estiveram a fazer o que lhes competia, o que é difícil numa imprensa tão controlada.
De que é exemplo o “caso Sebastião Pereira”.
Sebastião Pereira é, segundo o jornal espanhol “El Mundo” (que publicou reportagens sobre o caso de Pedrógão Grande assinados por Sebastião Pereira), o pseudónimo de um jornalista português. Numa das suas matérias escreveu uma verdade óbvia: António Costa sai politicamente chamuscado das chamas de Pedrógão Grande. Foi o que bastou para que muita gente (com o inacreditável Sindicato dos Jornalistas português à cabeça) exigisse saber quem ele é. 
O pseudónimo até se pode justificar no plano profissional (o autor pode estar impedido de assinar com o seu nome noutros órgãos de comunicação social, por exemplo). Não é caso único. O que aqui é único é a fúria pidesca dos que se lançaram à caça do autor. Por simples motivos políticos: não gostaram dessa verdade óbvia. Nunca isto aconteceu desde o 25 de Abril.
A esquerda, esta esquerda que vai do PS ao PCP, passando pelo BE, só lida bem com a imprensa quando a controla, de modo “soft” ou “hard” e o “caso Sebastião Pereira” põe a nu a ameaças que pesam sobre a nossa democracia quando ela está capturada por gente deste calibre. 

(Publicado no Tomate. Capas das revistas "Visão" e "Sábado", de 22.06.17)

quarta-feira, 21 de junho de 2017

Lixívia na água

A água que sai das torneiras da freguesia rural onde moro, no concelho de Caldas da Rainha, sabe a lixívia.
Telefonei para os Serviços Municipalizados de Água e Saneamento às 17 horas.
São 23 horas e a água continua a saber a lixívia.

segunda-feira, 19 de junho de 2017

Uma atitude abjecta




O caso da Junta de Freguesia da Foz do Arelho não expõe só o descontrolo das contas numa estrutura do Estado, cujas responsabilidades, espera-se, serão apuradas nas instâncias judiciais (conforme será natural, depois da decisão de remeter a auditoria para o Ministério Público).
Ele expõe também a atitude abjecta do grupo de independentes que, organizados no Movimento Viver o Concelho (MVC), foi uma surpresa nas eleições autárquicas em Caldas da Rainha em 2013, conseguindo eleger o seu candidato... na Foz do Arelho.
É agora este candidato, a quem deram confiança e que foi sempre muito acarinhado, que se apressam a arrasar, num comunicado onde se pode ler: "O conteúdo do relatório [da auditoria] é absolutamente demolidor no que concerne à competência, isenção e honorabilidade dos membros da Junta de Freguesia da Foz do Arelho, sendo particularmente gravoso para as pessoas do presidente e da secretária do executivo" e "não podemos deixar de manifestar o nosso repúdio, moral e político, pelos atos alegadamente praticados por aqueles que não foram capazes de estar à altura da confiança que os eleitores neles depositaram".
Nada justifica esta atitude do MVC relativamente ao lamentável "caso" da Foz do Arelho.
Nem a pressa em se distanciarem do caso, a pensarem que vão continuar a ganhar votos (se, por acaso, ainda aparecerem nas eleições deste ano).
Nem a defesa de pruridos que agora se revelam ocos de significado.
Mas ela também serve de aviso para outra coisa: que tenham cuidado os que forem na conversa deste tipo de associações que reivindicam um estatuto de "independentes" como se isso fosse uma garantia de santidade.
À menor contrariedade, suspeita ou indício de erro ou procedimento doloso, podem ser atirados para a lama e espezinhados. Mantenham-se à distância!

Cinco dias depois



O semanário "Jornal das Caldas", cuja assinatura está paga até ao mês de Agosto, sai à quarta-feira.
Ultimamente chega-me à caixa do correio, a cerca de 15 quilómetros da sua sede, à segunda-feira. De pouco me serve.