domingo, 15 de janeiro de 2017

Uma outra forma de abandono


Os cães não são objetos. Não são animais indiferentes aos seres humanos. Tenderão a gostar da companhia humana, sobretudo quando é dela que recebem os cuidados essenciais a poderem viver, mesmo quando esses cuidados incluem as dietas de supermercado nas suas piores versões.
Os cães têm calor e frio, precisam de exercício, beneficiam do exercício feito com os seus donos em termos de saúde e de disciplina.
Os exemplos que aqui ficam documentam o que de menos bom podem fazer os seres humanos aos seus cães, deixando-os soltos ou amarrados até em espaços exíguos ou completamente entregues à sua sorte em quintais maiores, indiferentes ao seu bem-estar, em atitudes que não têm explicação e onde se encontra um equilíbrio interessante: os mais boçais têm os cães estupidamente presos, com correntes ou em "celas"; os mais cultos não chegam a este regime de maldade mas não deixam o cão entrar em casa nem tão pouco o passeiam. É uma outra forma de abandono.











sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Karin Slaughter a fazer de Harlan Coben em formato agarra-que-foge

Karin Slaughter (e já aqui escrevi sobre esta autora norte-americana, de que traduzi três livros para português) é uma escritura prolixa... mas talvez em excesso. Isto traduz-se numa produção imparável de obras, com a série protagonizada por Will Trent a par com histórias autónomas, e pode fazer baixar alguns critérios de qualidade. Ou seja, pode não haver tempo para aperfeiçoar a história, para dar mais força às personagens, para cortar a "palha" que tende a intrometer-se na narrativa...
E é isso mesmo que acontece com "Pretty Girls", uma das suas obras autónomas (de 2015), que agora li e de que não gostei.
Com 544 páginas na edição de capa mole (Arrow), "Pretty Girls" é uma história de três irmãs (Claire, Lydia e Julia) em que uma delas foi raptada e desapareceu para sempre ainda em adolescente e em que o autor (ou co-autor) do crime se revela como sendo uma espécie de pretendente das três e marido de uma delas.
A grande revelação (o marido que se julgava morto e não está e a suas maldades) entra antes de metade do livro e o resto (cerca de 300 páginas) é uma espécie de jogo de agarra-que-foge que envolve o marido e as suas irmãs sobreviventes.
A história e o seu desenvolvimento fazem lembrar Harlan Coben, que gosta de narrativas movimentadas e cheias de surpresa, mas Karin Slaughter nem consegue criar o ambiente favorável a que o leitor não pare para pensar.
Contas feitas, o verdadeiro crime que precisaria de ser deslindado é o motivo que levou Karin Slaughter a escrever e deixar publicar uma coisa tão extensa e tão mal feita.



quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Tempos de loucura

1. Os juros da dívida portuguesa, a 10 anos, passaram os 4 por cento. O anterior ministro das Finanças do PS (Teixeira dos Santos, um príncipe do Renascimento quando comparado com o seu actual sucessor) disse em 2010 que quando os juros chegarssem aos 7 por cento seria necessário estender a mão à caridade internacional. O terceiro empréstimo internacional chegou em 2011 quando os juros já iam a 10 por cento. O actual chefe do Governo disse que não estava preocupado. O seu antecessor José Sòcrates terá dito mais ou menos o mesmo ainda em 2011.

2. Francisco Louçã, trotzquista emérito, professor doutorado de Economia, fundador do BE e uma mistura de bonzo com bispo do actual regime, disse que a sua jovem deputada Mariana Mortágua havia de ser ministra das Finanças. Não secretária de Estado de uma “causa” qualquer mas ministra das Finanças. Louçã saberá o que diz e o que quer. Bem vistas as coisas, a aventureira Mariana até pode ser uma boa herdeira de Mário Centeno. Já estivemos mais longe.

3. Depois da CGD andar na polémica pública há um ano, numa situação em nada saudável para uma instituição financeira, é a vez de o Novo Banco ter o seu futuro debatido na imprensa. Fragilizado, discutem os vários chefes dos clãs políticos das “esquerdas” se há de ser nacionalizado, vendido, retalhado, extinto, escondido. Admira que ainda haja depositantes no “banco bom” que sobreviveu ao lamentável colapso do grupo GES. Seja como for, a conta vai sobrar para todos.

4. Na capital do País, o presidente da Câmara Municipal não eleito aumentou a oferta do número de casas para os seus munícipes. Consta que um seu antecessor noutro ponto do País, Valentim Loureiro, fez o mesmo com torradeiras e micro-ondas há muitos anos. E ganhou as eleições. Em Lisboa, como o dito presidente é das “esquerdas”, já está tudo bem.

5. O Ministério da Educação do atual governo revolucionário vai contratar “tarefeiros” para as escolas a pouco mais de 3 euros à hora. Ninguém protesta.

6. Mário Soares não foi um anjo, não é um candidato à canonização, não é um deus. Foi uma personalidade importante depois do 25 de Abril. Foi Presidente da República e primeiro-ministro. Foi fundador e chefe máximo do maior partido português. Só isso. Mas a imprensa, sem excepções, endeusou-o. Desde há dois dias que não se fala em mais nada, que não há outras notícias. E, como acontece com todos os “pais dos povos”, só há elogios. As áreas menos claras da sua actividade política e partidária ficam na sombra, na lógica mesquinha portuguesa do “morreu, é uma pessoa excepcional”. Lá longe, na terra dos seus antepassados, o actual chefe do Governo nem se digna interromper a visita de Estado para prestar homenagem ao homem que, de uma forma ou de outra, o ajudou a cumprir uma das suas grandes ambições.

Vivem-se dias de loucura. O País não está são.



segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Universidade grande, imprensa pequenina

A Universidade de Lisboa, como agora é designada, unificou as antigas Universidade "Clássica" de Lisboa e Universidade Técnica de Lisboa.
Tem (números de 2014) mais de 48 mil estudantes, 2080 funcionários administrativos e técnicos e 3422 professores, num conjunto de 18 escolas superiores, e um orçamento anual de 316 milhões de euros.
É, pela sua dimensão e pela sua localização em Lisboa, uma das mais importantes universidades nacionais. Foi numa das suas faculdades (a de Letras) que me licenciei.
Gigantesca, até na sua extensão territorial por força da fusão das anteriores universidades, a Universidade de Lisboa tem, no entanto, uma revista... liliputiana.
É uma espécie de "newsletter" empresarial, com 32 modestas páginas, em papel de bom acabamento, com algumas fotografias a cores e num tom requintadamente sépia. O conteúdo deste número 1 é fraco, com entrevistas e textos que não contrastam com o tom melancólico da edição, sem ponta de interesse. Já vi, noutros tempos, publicações de universidades estatais do interior, universidades privadas e institutos politécnicos bem mais interessantes.
Em editorial pomposo, o reitor da instituição garante, com assinalável convicção, que a publicação "é um dos meios por excelência para a promoção da coesão e do espírito de corpo da Universidade". Se é, estaria melhor fragmentada.
Admira que tanta "massa crítica" e da outra (a dos 316 milhões de euros) não tenha conseguido fazer melhor.


A Universidade de Lisboa em versão "newsletter".

Idiotas muito perigosos (2)






Esta é uma fotografia de uma das estradas que atravessam a Serra do Bouro (Caldas da Rainha), tirada no passado dia 7.
Foi um dos locais por onde passou, não se sabe quando, um veículo da Câmara Municipal de Caldas da Rainha a despejar herbicida. As ervas da berma, como acontece sempre nestes casos, ficaram amareladas e morrerão.
Antes desta acção ou durante, ou mesmo depois, não se sabe, foram afixadas cópias desta folha de papel de tamanho A4, não assinada nem datada, a avisar para o lançamento do herbicida (como aqui mencionei, no passado dia 22 de Dezembro).





O local da fotografia é um de muitos onde passam pessoas com cães. E gatos e cães que andem à solta ou "perdidos", embora estes sejam incontroláveis. E aqui perto não houve papel a avisar. Nem nas imediações.
O que significa que animais e pessoas puderam ter estado em exposição directa ao herbicida, sem o poderem evitar, sem saberem sequer se o podiam evitar.
Repito, e reforço o que escrevi: o que curaria a estupidez dos tipos que decidem uma acção destas, sem avisar devidamente a população, seria uma baforada do dito herbicida na tromba.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

Porque não gosto dos CTT (115): só uma semana de atraso... já não é mau

Depois de uma semana sem correio, chegou-me hoje correspondência, na sua maioria da semana passada (embora uma com a data de 16 de Dezembro!).
No sistema de degradação em que a coisa se encontra, uma semana de atraso já deve começar a ser o padrão vigente, o tal da "qualidade"...

"Jornal das Caldas": assinante nunca mais

Em 14 de Dezembro publiquei aqui uma "carta aberta" dirigida às direcções da "Gazeta das Caldas" e do "Jornal das Caldas", manifestando o meu protesto pelo atraso na entrega das respectivas edições devido ao mau serviço dos CTT (a carta, enviada também por e-mail, pode ser lida aqui).
A "Gazeta das Caldas" (onde têm aparecido com alguma regularidade protestos contra os CTT) respondeu-me a dar conta da recepção da minha "carta aberta". Mas o "Jornal das Caldas" não me respondeu.
Hoje devia ter recebido a edição de ontem do "Jornal das Caldas". Os assinantes já nem recebem o jornal no próprio dia de saída por causa da introdução de cor na edição impressa.
Só que... não chegou.
O "Jornal das Caldas" não parece preocupado com os atrasos com que os CTT brindam os seus assinantes.
Por isso, e dando aliás seguimento ao que já afirmei, decidi não renovar a assinatura deste jornal. E logo se vê se o comprarei. Talvez um só, na região, me chegue.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Ainda vamos ter saudades de Américo Thomaz?



O "venerando Chefe do Estado" - Marcelo Rebelo de Sousa deve tê-lo conhecido...







O Presidente da República foi inaugurar uma instituição social e entregaram-lhe a chave com que abriria a porta inaugural.
O Presidente enfiou a chave na fechadura e tentou rodá-la mas nada – a porta não se movia.
Perante o embaraço da situação, e ao aperceber-se de qual o era o problema, um dos elementos da sua comitiva sussurrou-lhe: “É com os dentes para cima.”
E o Presidente voltou a enfiar a chave na fechadura, virando a cara para cima, abrindo a boca e expondo bem os seus dentes.
Noutra ocasião, numa visita pelo interior, improvisou perante as personalidades locais, e começou: “Esta é a primeira vez que aqui venho desde que cá vim pela última vez.”
Terá sido por algumas destas e por muitas outras que constou sempre que a oposição ao regime largou uma vez no Rossio um porco vestido de almirante.
Os dois primeiros episódios foram, com razão ou sem ela, atribuídos ao último Presidente da República do Estado Novo, Américo Tomás/Thomaz (almirante, 1894 – 1998, oficialmente o apelido parece ser “Tomás” mas a imprensa, à época dava-o como “Thomaz”), que esteve em funções entre 1958 e 25 de Abril de 1974.
Desconhece-se o verdadeiro grau da sua influência política, depois de ter aparecido sempre num modesto segundo lugar relativamente ao primeiro-ministro (presidente do Conselho) Oliveira Salazar e de não ter conseguido evitar, nem limitar-lhe a actividade, a ascensão do último primeiro-ministro do Estado Novo, Marcelo Caetano.
Transformado, para sempre, no que parecia ser uma figura apagada, Américo Thomaz começou, a partir de certa altura, a tornar-se mais notado pelas infelicidades discursivas que se iam manifestando nas suas incursões pelo interior (a “província”, como se dizia). Não chegava ao absurdo dos discursos completamente tontos de um governador civil de Lisboa, Afonso Marchueta, mas não deixava de incorrer no gozo popular pelo que ia dizendo, sem cessar, por esse país fora. 
Américo Thomaz era, naturalmente, um homem do regime (o Estado Novo) e, no conjunto de figuras destacadas da “linha dura” e até por ser Presidente da República, não era das mais brandas. Ó ódio político que despertava entre as oposição ao Estado Novo tendia, naturalmente a exacerbar os disparates que lhe eram atribuídos e por isso as suas lastimáveis intervenções, que mesmo alguma imprensa parecia por vezes relutante em transmitir, tornavam-no ridículo. 
É possível, claro, que o seu afã de aparecer em todo o lado e em tudo não lhe tivesse facilitado uma reflexão sobre as várias vantagens que um silêncio bem gerido pode ter nem sobre a aplicação prática do “ou entra mosca ou sai asneira”.
De qualquer modo, as suas intervenções acabavam por tornar-se, por isso mesmo, hilariantes.
Ainda não é o caso do actual Presidente da República mas pode muito bem acontecer que nos deixe com saudades do “venerando” Thomaz que, pelo menos, nos fazia rir.


(Publicado no Tomate.)

domingo, 1 de janeiro de 2017

Porque não gosto dos CTT (114): se os próprios o confirmam...

Os próprios carteiros, segundo o "Jornal das Caldas" de 28 de Dezembro, reconhecem que há atrasos na distribuição e entrega de correspondência em Caldas da Rainha!



Porque não gosto dos CTT (113): para eles, os clientes são uma chatice


Um cliente tirou a sua senha numa das estações dos CTT de Caldas da Rainha, a poucos minutos da hora do encerramento (18 horas), e depois atreveu-se a pôr o pé de fora para acompanhar outra pessoa e se despedir dela.
Fecharam-lhe a porta na cara e, mesmo tendo ele a senha de atendimento, ficou na rua e ainda o ridicularizaram.
A carta de um observador indignado, nos dois jornais do concelho, conta os pormenores:


"Gazeta das Caldas", 30.12.16

"Jornal das Caldas", 28.12.16