sexta-feira, 23 de setembro de 2016

Abençoado euro!

O sistema financeiro e económico que decorre da inclusão de Portugal na zona da moeda única da União Europeia é bom para o País ou não? Numa perspectiva doutrinária e económica, pode ser… como não ser. As opiniões variam e quase todas elas são merecedoras de atenção.
Há, no entanto, uma inegável vantagem para Portugal, neste preciso momento: a moeda única e a nossa integração na Zona Euro são as únicas fronteiras ao desvario absoluto do governo da coligação PS-BE-PCP.
Vivemos, de certo modo, e de uma maneira que ainda alimenta muitas ilusões (embora em regime de pensamento mágico), um segundo PREC. 
O Processo Revolucionário em Curso (o chavão que acabou por caraterizar essa época) de 1974 – 1975 teve uma componente de tentativa multifacetada de controlo do poder político e económico por parte da esquerda e das várias extremas-esquerdas. Havia militares armados de um lado e do outro. O PS, seguro de que o poder viria a ser seu, distanciou-se desde cedo do PCP e dos restantes extremistas. O modelo económico e político do PCP (o sector mais forte) era o do “socialismo real”. As extremas-esquerdas tinham tudo e não tinham nada: da URSS estalinista à China maoísta, passando pelo inaplicável trotzquismo  
Este PREC é diferente. Não há, ao que parece, militares armados de braço dado com a esquerda e a extrema-esquerda. Aliás, a esquerda parece ter ido de férias, e sobejou a extrema-esquerda em todo o seu esplendor ideológico. 
O PS governamental, o BE (que parece mandar no PS) e o PCP que já enterrou as prédicas do pai fundador contra o radicalismo pequeno-burguês de fachada socialista controlam a maioria do Parlamento e o Governo que formaram. A espiral radicalista da “justiça fiscal”, e dos prémios sectoriais a pensar nos votos que hão de vir, avança a todo o vapor. 
A democracia constitucional e a Presidência da República são os únicos obstáculos concretos. Mas o Presidente ainda parece acarinhar este governo de extrema-esquerda e a Constituição garante que o País vai ser socialista.
E há modelos para esta gente? A Coreia do Norte é um império orientalizado, de exportação difícil. Cuba já deu o que tinha a dar. A China de “um país, dois sistemas” não é flor que se cheire.
O que resta, à extrema-esquerda, é o exemplo latino-americano da Venezuela. Com forças armadas razoavelmente fortes e uma população entregue à sua triste sorte, dominada por um governo de loucos chefiado por um louco ambicioso.
Se não fossem a Zona Euro, a moeda única e a União Europeia, já estaríamos mais para lá do que para cá. E, mesmo assim, o futuro está cada vez mais sombrio.

Em fila de espera

A minha lista de leitura.
Deste conjunto, "Wilde Lake", de Laura Lippman, foi o primeiro e já vai avançado.
Laura Lippman faz parte, injustificadamente, de um grupo de autores de "thrillers" que são desconhecidos em Portugal.







quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Campanha eleitoral (autárquicas de 2017, Caldas da Rainha)

O presidente da Câmara Municipal de Caldas da Rainha, e candidato do PSD às eleições autárquicas de 2017, aparece sete (7) vezes na edição desta semana do "Jornal das Caldas".
Não são conhecidos outros candidatos à presidência da câmara. Nem se sabe se os haverá.
Mas, a haver, perdem (ainda mais) terreno a cada semana que passa.

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

"Barbarians Rising": uma fritada mista


Fraco, muito fraco...

"Roma" foi, há 11 anos, uma excelente ideia e poderia ter sido uma grande série de televisão.
Mas esta história romanceada do Império Romano, com dois plebeus como personagens principais, foi prematura. A violência e o sexo deram cabo dela. A HBO, a produtora, fez-lhe as exéquias finais. 
Se a virmos tendo presente o magnífico "Gladiador", de Ridley Scott, temos um padrão de qualidade. "Vikings" anda lá perto, com um tom shakespeareano e a evocação de "Ivan, o Terrível". "Barbarians Rising" (canal História) poderia, ao menos, ter tentado chegar a estes calcanhares mas não: anda longe, muito longe.
A ideia de retratar, ao longo de uma dúzia de episódios, os chefes das nações "bárbaras" que debilitaram o Império dos Césares e acabaram por fragmenta-lo, é bondosa. Talvez tivesse dado uma grande série vagamente realista (pode recordar-se aqui a "idade de ouro" da BBC e a sua série "Os Césares"). Mas o certo é que não deu.
"Barbarians Rising" (apesar do seu carimbo "científico") resume-se a ilustrações de algumas sequências mais animadas (pois, só podia) desses chefes bárbaros e comentários, ou excertos de comentários, de uma falange de personalidades que servem de alibi mais ou menos científico para a coisa mas que adiantam menos do que os mapa animados que inseriram no primeiro episódio.
E esse, sobre o cartaginês Aníbal, é fraco.
O segundo, sobre o lusitano Viriato (e que série não daria esta figura para a miserável televisão portuguesa!...), é uma colecção de meias-tintas. 
A avaliar por estes dois primeiros episódios, "Barbarians Rising" não passa de uma fritada mista: uma misturada de fragmentos de erudição com fragmentos de cenas de acção de qualidade abaixo da média. Em nada se recomenda. 

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

A indignação contra “Eu e os Políticos”: uma lição de hipocrisia



Há por aí, segundo consta, um livro que conta “segredos sexuais” ou “revelações sexuais” dos políticos. Parece mal, há até quem diga que é crime, todos aqueles que exigem “transparência” aos políticos choram lágrimas de indignação. 
Trata-se de “Eu e os Políticos”, de José António Saraiva (ed. Gradiva), que foi director do “Expresso” e do “Sol”, que (suscitando todas as mais piedosas inquietações) até tem um buraco de fechadura na capa e uma apresentação algo sensacionalista: “O que não pude (ou não quis) escrever até hoje – O livro proibido”.
Fui comprá-lo e lê-lo, tendo assim cometido um pecado, um sacrilégio ou um crime (depende do grau da indignação encenada). Encontrei 260 páginas de apontamentos memorialistas sobre 42 figuras públicas, das quais nem todas são políticos. E encontrei “segredos sexuais”? Bom, nas 260 páginas informa-se o leitor de que:
1. P. P. é homossexual – como se não corresse há anos a informação, e nem foi necessária a reportagem do jornalista Rui Araújo no “Le Point”, e duas outras figuras públicas do PS e do BE (A.G. e F. L.) não o tivessem já insinuado com grosseria;
2. E. R. (que não é político) e P. S. L. tinham algumas inconstâncias de natureza amorosa – o que não é exactamente uma novidade;
3. M. F. e  J. A. D. tiveram um “caso”; 
4. F. C. e A. L. (nenhum deles políticos) se faziam fotografar quando tinham relações sexuais e que a empregada da primeira viu as fotografias; e que
5. E. F. R. aparecia mencionado no “processo Casa Pia” – o que nem é novidade.
Estes são, em menos de meia-dúzia de páginas, os “segredos sexuais” dos políticos, que tantas boas almas indignram, ou o quiseram aparentar, do Facebook à imprensa dita “de referência”. E até podia haver bastante mais. Quando o autor se refere a “O Independente” podia ter esclarecido o enigma da célebre pasta, com fotografias de meninos nus, que pertencia ao ministro E. M. e um dia ficou esquecida, ou o motivo que levou o ministro V. O. a demitir-se do Governo quando o famoso “Bibi” foi preso. Ou o namoro mais picante entre o deputado M.A. e a deputada H.R. Por exemplo.
A indignação, no caso deste livro, é uma hipocrisia, uma parvoíce ou uma ingenuidade quase comovente. 
O que aqui se lê é o que José António Saraiva conta (com a candura de “outsider” do “milieu” que o caracteriza) sobre os contactos presenciais e pessoais com políticos que até davam informações em primeira mão ao “Expresso”. E, também, como recusou ou contornou certas pressões. Este testemunho é mais relevante do que as apregoadas “revelações sexuais” da treta. E seria bom que quem, no meio jornalístico e intelectual, se mostrou tão indignado contasse o que sabe ou o modo como também obtinha, e obtém, as suas próprias informações.  
Aliás, o tráfico de informações entre o poder politico, judicial e económico e o jornalismo é que merece maior escrutínio do que a vida privada das pessoas públicas e, em numerosos casos, a devida indignação.
É sintomático que disso não se fale. E, aliás, também se percebe como as notas de José António Saraiva parecem, até, ser contidas. 
Quanto ao resto, “Eu e os Políticos” até se lê bem. Não passa de um registo memorialista interessante, capaz de interessar mais ao leitor que mais conhece ou melhor memória tem. Quanto ao pequeno mundo nacional (onde os facilmente indignáveis emprenham ansiosamente pelo ouvido), merecia mais. A bem da transparência da vida pública.



sexta-feira, 16 de setembro de 2016

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

12 meses



A campanha eleitoral dele já começou

Falta um ano para as eleições autárquicas de 2017.
Não se nota, em Caldas da Rainha, que o CDS, o PS, o PCP ou o MVC tenham interesse nesta eleições ou queiram derrotar a imprestável maioria absoluta do PSD, cujo candidato (e presidente da Câmara Municipal) já está em campanha eleitoral há várias semanas.


segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Pode a sexualidade valorizar o currículo?



Na capa da revista do "Expresso", 10.09.16

F.L., professor, poeta e tradutor, está a traduzir uma nova versão da Bíblia. É um facto cultural relevante embora, para todos os efeitos, nada vença a Bíblia dos Capuchinhos, de consulta fácil e à distância de meia-dúzia de cliques.
O jornal “Expresso”, talvez para variar da recente moda jornalística de entrevistar actores, actrizes e apresentadores e apresentadoras (não é assim que se deve escrever?), resolveu entrevistá-lo. E na capa da sua revista apresenta assim o entrevistado: “(…) Um dos mais brilhantes intelectuais portugueses, homossexual assumido e autor da primeira tradução da Bíblia a partir do grego. Uma questão de fé.”
Não se percebe bem a eventual relevância da última frase sobre a fé mas, aqui, o que interessa é a relevância da sexualidade do entrevistado. “Homossexual assumido” é aqui, pela ordem de construção do textículo da capa, mais importante até do que a tradução do grego. 
Mas, quando se penetra no texto da entrevista, a dúvida adensa-se. São 69 as perguntas (eu contei-as) e, delas, só 7 têm a ver com o exercício social (e é só) da sexualidade do entrevistado. E nessas 7 o mais longe que a entrevistadora vai é na opinião do cônjuge quando ao excesso de trabalho do entrevistado. Portanto, qual é a relevância da sexualidade e “assumida”? 
É possível que o pormenor da sexualidade do entrevistado tenha a ver com qualquer opção do jornalismo do “Expresso”. Aliás, é um aspecto que porá qualquer alma atenta a pensar se os passados e futuros entrevistados do “Expresso” também vão ser apresentados pela sua sexualidade.
De qualquer modo, é um precedente interessante. E até, sabendo-se da importância que a imprensa em geral tem junto dos decisores políticos dos vários escalões, pode vir a fazer lei. Lei, mesmo, ou norma social e profissional.
Aplicável, obviamente, aos currículos. 
Parece ser hábito dos jovens (e menos jovens?) inundar com currículos empresas e tudo o que parece ser empresa (até eu já recebi “candidaturas espontâneas” para o modesto blogue pessoal que mantenho). E parece ser hábito nas empresas nem olhar com profundidade para a chuva de “candidaturas espontâneas” que lhes chegam por correio electrónico, tal é a quantidade (e a qualidade…)
No entanto, talvez, à luz do precedente aberto pelo “Expresso”, seja útil aos candidatos incluírem a sua sexualidade no currículo, de preferência com a sua classificação (assumidos, ou não). Seria, decerto, um elemento sugestivo para captar a atenção dos destinatários dos currículos e, já agora e em nome da transparência, aumentar até as possibilidades de contratação, por interesse personalizado de quem contrata. 
E isto só para começar, porque há muitos outros pormenores pessoais que se podem sempre incluir…


sexta-feira, 9 de setembro de 2016

Falta de cuidado


Quando comecei a vir regularmente para Caldas da Rainha e antes mesmo de me fixar aqui, optei por assinar um dos jornais regionais, a "Gazeta das Caldas", para o ter na caixa do correio quando chegava ao fim-de-semana e saber, pelo menos, uma parte do que se passava no concelho.
Tornei-me assinante do outro, o "Jornal das Caldas", mais tarde.
Continuo a manter-me assinante, acho que o devo ser (como jornalista que já fui, não posso deixar de ter um fraquinho pelos jornais regionais que, com óbvias dificuldades, vão cumprindo as suas obrigações informativas e pelos seus profissionais) mas quando, como ontem, fui renovar as assinaturas e me deparei com as edições desta semana... bem, às vezes quase me arrependo.





Não é desta semana mas tem sido constante: a campanha eleitoral (nem vale a pena usar o eufemismo "pré-eleitoral") do presidente da Câmara Municipal, que o quer ser outra vez. Todas as semanas aparece várias vezes no conjunto dos dois jornais.
Há sessões oficiais e outras que nem tanto, há protocolos e outras coisas parecidas, há a mais descarada das acções de propaganda que imaginar se possa... e ele lá está.
A "Gazeta" e o "Jornal" poderão ter favores a pagar, podem não arranjar maneira de se distanciarem, podem com toda a convicção apoiar o PSD local (e contraditoriamente, no caso da "Gazeta", abominar o PSD nacional).
Mas, caramba, há eleições daqui a um ano. E este presidente é candidato.
É claro que os restantes partidos andam completamente alheados da coisa e talvez até já tenham como certa a vitória do PSD local. Ou ela lhes convenha. Mas o alheamento dos outros protagonistas não justifica o excesso. Nem o descuido da falta de objectividade.





"A colheita das pera já começou", "As peras têm de colhidas com pé e colocadas com cuidado no balde", "Após ser colhida das árvores para o balde, são depositadas deste no palote"... Isto são legendas de algumas das fotografias de uma reportagem sobre a apanha da pera rocha no "Jornal das Caldas".
Interessante, a reportagem é um paradigma do que não se deve fazer. Não são só as legendas. É o facto de no seu espaço aparecer um anúncio da empresa agrícola onde é feita a reportagem, sugerindo que a reportagem está mais no campo da publicidade do que no do jornalismo.
Mas pior é o retrato dos que andam à apanha e, em especial, de duas pessoas.
Com nome e fotografia, confessam que estão desempregadas e o fazem pelo dinheiro. É um mecanismo social e económico natural. Mas... estarão estas pessoas a receber subsídio de desemprego? Se estiverem, fica exposta a prevaricação.
Este é um problema da imprensa regional: a falta de cuidado e de algum profissionalismo. O "Jornal das Caldas", que demonstra uma postura mais simpática do que a arrogante direcção da "Gazeta", pode decerto resolvê-lo.